Quando pensamos em saúde mental, a imagem que geralmente vem à cabeça é a de alguém deitado em um divã ou tomando remédios para ansiedade ou depressão. Mas saúde mental vai muito além da psicoterapia ou da psiquiatria. Ela é atravessada por condições de vida, por relações sociais e, principalmente, por políticas públicas — ou pela falta delas.
A saúde mental não se limita a clínica
Antes de chegar ao consultório, o sofrimento psíquico se forma em muitos outros lugares: na exaustão de quem precisa escolher entre pagar o aluguel ou se alimentar, na solidão de uma mãe sem rede de apoio, na pressão de quem precisa performar produtividade mesmo adoecido. Fatores como moradia, segurança, acesso à educação, transporte,trabalho digno e tempo para descanso são fundamentais para uma vida com saúde mental.
Se as causas do adoecimento são coletivas, as soluções também precisam ser.
O cuidado não é neutro: quem cuida de quem cuida?
Vivemos em uma sociedade que naturaliza que o cuidado seja tarefa das mulheres — especialmente as mulheres negras e pobres. É o que chamamos de economia do cuidado: um sistema onde atividades essenciais como cozinhar, limpar, educar, acolher e amparar são invisibilizadas, desvalorizadas e mal distribuídas. Esse trabalho não remunerado sustenta o bem-estar da sociedade, mas adoece quem o realiza.
Uma política de saúde mental comprometida com a justiça social precisa questionar essa desigualdade de gênero e promover estratégias concretas de redistribuição do cuidado. Isso inclui ampliação da licença parental, oferta de creches públicas, programas de educação parental para homens e apoio institucional à saúde das cuidadoras.
O papel do Estado: por que políticas públicas são fundamentais?
O sofrimento mental não pode ser tratado como uma falha individual, mas como um reflexo de sistemas sociais desiguais. Por isso, o Estado tem um papel fundamental na prevenção e no cuidado em saúde mental. Ações como:
- Investimento em saúde pública e atenção psicossocial (CAPS, UBS, equipes multidisciplinares);
- Programas de renda básica e combate à pobreza;
- Políticas habitacionais e de segurança alimentar;
- Educação pública de qualidade e acessível;
- Incentivo à cultura, ao lazer e à convivência comunitária;
Tudo isso impacta diretamente a saúde mental da população — e, em especial, das pessoas em situação de maior vulnerabilidade.
Cuidar é um ato coletivo
Cuidar da saúde mental exige mais do que autocuidado. Exige um compromisso coletivo com justiça social, com redes de apoio e com o fortalecimento das políticas públicas. Enquanto o cuidado for tratado como responsabilidade privada — das mulheres, das famílias, dos indivíduos — estaremos apenas mascarando os efeitos de um sistema desigual.
Lutar por saúde mental é também lutar por creches, licenças, moradia, comida no prato e tempo para viver. Porque ninguém cuida bem estando esgotado. Porque saúde mental também é política.

