Falar de saúde mental é, muitas vezes, falar de sofrimento humano. Mas para entender esse sofrimento de forma profunda, é preciso ir além dos sintomas individuais. Afinal, nossos pensamentos, emoções e comportamentos não surgem no vácuo: eles são moldados pelas relações sociais, políticas e culturais em que vivemos. E entre essas relações, uma das mais estruturantes — e muitas vezes invisibilizadas — é a desigualdade de gênero.
Gênero como estrutura social e afetiva
Gênero vai além da construção de uma identidade. Muito menos pode ser definido por marcadores biológicos. Ele funciona como uma estrutura de poder que organiza nossa sociedade, distribuindo privilégios e vulnerabilidades. Isso impacta diretamente a forma como mulheres e pessoas dissidentes de gênero vivem, se relacionam, trabalham, se percebem — e, consequentemente, como adoecem.
As mulheres, por exemplo, são historicamente socializadas para o cuidado do outro, para a abnegação, para colocar as necessidades dos demais acima das suas. Esse papel, reforçado desde a infância, pode se traduzir em sobrecarga emocional, dificuldade de estabelecer limites, mais exposição a violências e altos níveis de estresse — sintomas frequentemente vistos em consultórios de saúde mental.
Dados que não deixam dúvidas
Diversas pesquisas apontam que mulheres apresentam maiores índices de ansiedade, depressão e transtornos alimentares. Ao mesmo tempo, também são as que mais buscam ajuda psicológica — o que, por um lado, reflete maior abertura ao cuidado, mas por outro revela o peso da responsabilidade emocional que muitas carregam sozinhas.
Mulheres negras, indígenas e trans estão ainda mais expostas à vulnerabilidade, pois vivem o entrelaçamento de múltiplas opressões. A interseccionalidade, conceito desenvolvido por Kimberlé Crenshaw, ajuda a compreender que a desigualdade de gênero se manifesta de forma distinta quando atravessada por raça, classe, sexualidade, território, entre outros marcadores sociais.
Subjetividade atravessada pela cultura
Pensar em subjetividade de forma asséptica, como se fôssemos indivíduos isolados da cultura, é um erro ainda comum em muitas abordagens clínicas. Mas a saúde mental não pode ser pensada sem o contexto. As crenças que temos sobre nós mesmas, nossas emoções, nossa autoestima e formas de amar estão diretamente ligadas aos discursos sociais de gênero que nos moldam desde sempre.
A ideia de que mulheres devem ser “boas” o tempo todo, por exemplo, pode levar à repressão da raiva, ao medo do confronto e à tendência a se submeter em relacionamentos abusivos. Esses não são apenas dilemas pessoais — são efeitos de uma cultura que penaliza a autonomia feminina e premia a dominação masculina.
O cuidado como pauta política
Se o sofrimento tem raízes sociais, o cuidado também precisa ser pensado social e politicamente. Isso não significa transformar o consultório em um palanque, mas reconhecer que escutar, acolher e fortalecer mulheres e pessoas dissidentes de gênero também é um ato de enfrentamento às violências estruturais.
Psicólogos e psicólogas têm o compromisso ético de olhar para o sujeito em sua totalidade — o que inclui sua história, seu contexto e as relações de poder que o atravessam. Isso exige sensibilidade de gênero, formação crítica e disposição para revisar nossas próprias crenças.
A clínica como espaço de transformação
Felizmente, cada vez mais profissionais têm se dedicado a construir uma prática clínica que compreende gênero como parte indissociável da saúde mental. Isso envolve escutar sem julgamento, validar experiências de opressão e construir, junto com a pessoa atendida, formas mais livres e potentes de existir no mundo.
Pensar gênero na clínica não é um luxo, é uma urgência. Porque enquanto a desigualdade continuar sendo tratada como detalhe, o sofrimento continuará sendo tratado como falha individual — e não como o grito de um corpo atravessado por estruturas que precisam mudar.

